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Diário de uma quarentena

Quando tudo começou e as notícias não paravam de chegar da Itália, nós aqui em casa nos lamentávamos muito. Há pouco tempo tínhamos voltado de férias e em nossa memória a linda Itália estava fresca cheirando à croissant de chocolate.

Os números de mortos a cada dia aumentando e eu daqui, não podia evitar…em minha mente vinha o senhor da padaria ou aquela senhora que roubou minha atenção no metrô, com sua linda franja e seu notebook, escrevia sem parar, impossível pensar nessas pessoas e não sentir tristeza.

Durante os dias que se seguiram a tristeza cedeu lugar ao medo. Estávamos também tendo um surto da pandemia em nosso país e agora não podíamos mais sair de casa. Não havia escola e nossa empresa estava fechada.

Acordar em nosso condomínio, na nossa rua tão movimentada, ao lado da escola tão barulhenta, onde os funcionários pareciam disputar o microfone na entrada e saída das crianças e no retorno dos intervalos, turma à turma, andar por andar, todos sendo anunciados com um entusiasmo intrigante ao microfone, não fazia mais parte da rotina. Não se ouvia as crianças, não se ouvia as buzinas, a trilha sonora do mundo havia mudado.

O mundo havia parado e aquilo não parecia real.

Não me lembro em minha vida de nenhum momento onde eu tenha sentido mais medo.

Não me lembro ter na vida tanto tempo para olhar para dentro , eu acredito que esse seja o principal legado do Covid 19.

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Tivemos que virar os professores dos nossos filhos e pais 100% presentes e isso tem sido muito difícil. Quanta atenção requer uma criança e quanta atenção no quesito escola isso demanda?

Os prejuízos deste ano letivo podem e devem ser medidos mas o isolamento de nossas crianças sem poder ver e brincar com outras crianças também isoladas , isso só o tempo vai mostrar.

Agora em casa temos uma cachorrinha (fruto da pandemia) a Amora que tem arrancado muitos sorrisos da Gabi e também senso de responsabilidade, o que é ótimo em um ano em que as crianças foram impedidas de realizar suas atividades.

Foram dias intermináveis de incertezas e a única certeza era não precisar tirar os pijamas. Louças gigantes que nunca paravam de crescer, eu até adquiri alergia à detergente, agora me diga, como uma mulher pode adquirir uma porcaria dessas? Era de fato um mundo novo!

Dias e dias de pijamas.

O tempo foi passando e entre um ataque de ansiedade, medo e dias mais tranquilos em casa com minha família, comecei à fotografar a nossa rotina de isolamento e isso fez um bem danado para minha alma, primeiro porque amo fotografar, essa é uma das minhas “medicinas” e amo dar o meu olhar às fotografias, depois porque percebi olhando para elas que estar em casa fazendo bolo com minha filha ou vendo meu marido ajeitar as persianas, era uma oportunidade de conviver. Estávamos todos juntos dias e dias e isso não poderia ser tão ruim, afinal era meu marido e minha filha, os meus maiores amores.

Em meio ao caos eu superei o medo e de certo modo até me diverti, observando e fotografando. Tirei inúmeras fotos, todos os dias e separei algumas delas para colocar aqui, nesse meu pedaço de manifesto, nesse blog que posso voltar sempre que necessário e escrever…

Acordar todas as manhãs bem cedinho enquanto a casa dormia era para mim um ato de autocuidado e tão necessário! Eu precisava destes momentos sozinha, principalmente agora que era quase impossível. Eu precisava passar o meu café em silêncio e desfrutar desses momentos iria me garantir sanidade para mais um dia entre quarenta, (mal eu sabia…)

Apesar do medo dessa doença e também do futuro das coisas (não sabíamos o que vinha pela frente) me surpreendi com meu marido que esteve sempre de bom humor tentando manter a calma, o otimismo e nos tranquilizando em casa.

A empresa estava fechada, as vendas tinham caído mais de 80% e tínhamos funcionários dependendo de nós. Ele foi “o cara”, mantendo o equilíbrio e a serenidade, isso poderia ter tornado a quarentena ainda mais difícil mas nosso super-homem foi sensacional, foi refúgio nas horas difíceis, foi fortaleza nas de incerteza.

Eu tenho consciência que famílias tiveram suas vidas transformadas por causa dessa doença, pessoas que perderam seus entes queridos de maneira tão estúpida (mal eu sabia que teríamos também os nossos mortos) e fim era triste, não havia despedidas, não se podia dizer no fim derradeiro o que precisava ser dito, não se podia abraçar e beijar pela última vez o corpo daquele ser tão amado.

Famílias também tiveram suas empresas extintas e acordaram tendo que recomeçar do zero com problemas financeiros gravíssimos.

Nós em casa na rotina nova que se desenrolava não sabíamos quanto de sofrimento havia no mundo lá fora, a gente só imaginava.

E o que dizer dos idosos sozinhos, sem direito ao beijinhos dos netos, justamente o que lhes é mais necessário nessa altura da vida, em que a velhice nos abre os olhos para o que de fato é importante; os afetos!

Não, agora não mais… Abraçar um idoso poderia lhe custar a vida; à dele ou a sua.

O Covid 19 veio para isolar o mundo e nos mostrar que ninguém pode ser feliz sozinho. Precisamos uns dos outros.

Me lembro com muita emoção de uma foto que meus pais mandaram no grupo da nossa família.

Os dois tomando sol juntinhos no sofá da sala enquanto ao fundo a TV mostrava o número de mortos por Covid 19.

Chorei olhando para essa foto, tive um daqueles momentos que a gente desaba botando para fora emoções acumuladas.

E as emoções eram tantas…medo da incerteza, medo do futuro, medo da morte.

O mundo ainda enfrenta essa doença e há ainda muitas mortes acontecendo. Meus pais continuam em isolamento mas meu coração está mais tranquilo agora, afinal podemos nos adaptar até ao caos.

Estive com meus velhinhos e pude à distancia acalmar meu coração que estava tão apertado. Contando os dias para leva-los comigo para onde eu for… Vou paparicar meus pais com um ano inteiro de atraso!

As escolas cogitam em voltar e o fim do ano se aproxima. Nossa empresa está aberta e retomamos 100% de nossas atividades e negócios.

Comprei uma lava-louças!

Vamos aos poucos voltando ao “novo normal” mas dentro de mim, a Daniela nunca mais será a mesma. O caminho foi intenso e profundo, e lá dentro por onde andei nesses tempos de pandemia pude avaliar e numerar tudo o que precisa ser mudado.

O mundo vai se recuperar e seguir seu caminho mas a lição deixada pelo covid 19 não será esquecida: de que o caminho é para dentro.

Meu sogro, te dedico com amor e saudade. Hoje, dia 13 de Junho de 2024 retornei a este texto e só consegui pensar em você, (meu sogro falesceu de Covid 19 uma semana antes de tomar a vacina).

Um beijinho no seu coração, decerto que em tempo divino voltaremos a nos ver.

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Um comentário em “Diário de uma quarentena”

  1. Sentimentos verdadeiros, carregados de profunda verdade! Cruas, doloridas, porém muito sinceras. Tudo q gostaríamos de falar! A grande lição será a mudança de comportamento, jeito de olhar o outro e ser feliz com o q a vida nos dá. Grande abraço🌹

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